Vila Esperança: crônica sobre política local e futuro roubado

Vila Esperança: crônica sobre política local e futuro roubado
O asfalto de Vila Esperança, que era quase sempre buraco e remendo, terminava exatamente onde começavam as promessas de campanha. A cidade guardava esperança no nome, mas já não sabia muito bem onde tinha deixado o futuro.
Encravada no coração de Goiás, Vila Esperança vivia sob a sombra das mangueiras centenárias e de um marasmo que não era culpa da terra. A terra era boa. Se jogasse um caroço de conversa, nascia um boato. Se plantasse semente, brotava fartura.
O problema era outro. O progresso tinha o freio de mão puxado pela família do Dr. Getúlio, prefeito em seu quarto mandato alternado e dono de quase tudo que respirava com alvará na cidade.
A cidade dos quases
Vila Esperança era um museu de quases.
Quase recebeu indústria. Quase reformou a escola. Quase comprou aparelhos para o hospital. Quase virou referência regional. Quase deixou de ser promessa.
O dinheiro público, por ali, parecia ter vontade própria. Saía do orçamento com destino certo, mas encontrava atalhos no meio do caminho. Quando alguém perguntava demais, surgia uma explicação comprida, uma assinatura ilegível e um culpado que nunca estava na sala.
O hospital pintado por fora
O Hospital Municipal tinha a fachada pintada de verde-folha, cor que Dr. Getúlio dizia representar a cura. Por dentro, porém, o que se encontrava era o vazio.
A verba para os aparelhos médicos, diziam as más línguas, tinha sido levada pelo Saci-Pererê. Entrou num redemoinho de notas fiscais, sumiu mata adentro e deixou para a população apenas o cheiro antigo de tinta nas paredes.
Hoje em dia, nem tinta havia mais.
Na Escola Municipal Cora Coralina, o teto ameaçava descer para ouvir a aula. Quando os pais reclamavam, o prefeito mandava um caminhão de cascalho para a rua deles. O povo, com o pé na lama, aceitava o cascalho e esquecia o teto.
Era assim que a cidade seguia. Uma necessidade abafava a outra. Uma migalha adiava uma revolta.
A taxa cobrada do futuro
Um laticínio de grande porte quase se instalou na entrada da cidade. Seria emprego, movimento, renda, juventude ficando por perto.
Mas o prefeito pediu uma taxa de cooperação tão alta que os empresários recolheram as plantas, desmontaram os planos e foram para as terras de Belas Vistas. O solo era o mesmo. A diferença é que lá a política não cobrava o preço do futuro para deixar o presente acontecer.
Vila Esperança ficou com a placa, a conversa e a saudade do que nunca chegou.
A política como cupim
Na Praça dos Peixes Esquecidos, Seu Tião, o boticário mais antigo da região, observava tudo da sua cadeira de palhinha na calçada. Viu gerações de jovens pegarem o ônibus da Goiatins com uma mala de papelão e um olhar de adeus.
O compadre Jovenil, apontando para o horizonte de soja das cidades vizinhas, dizia:
— Goiás está crescendo, Tião. Por que aqui a gente ainda reza para a lâmpada do poste não queimar?
Tião tragava o palheiro feito naquela terra e soltava a fumaça devagar.
— É que aqui, Jovenil, a política é igual cupim. Não derruba a casa de uma vez para não perder o abrigo. Vai comendo por dentro até não sobrar nada além de uma casca que qualquer vento derruba.
O banquete das migalhas
Em ano de eleição, Vila Esperança ganhava uma vida artificial. Era o Festival da Bondade, realizado em agosto.
O asfalto sonrisal, aquele que a primeira chuva de caju levava embora, era passado às pressas sobre a terra vermelha. O churrasco em praça pública servia carne de segunda para um povo que passava quatro anos mastigando saudade.
Dr. Getúlio subia no palanque, suado, abraçava as velhinhas e prometia que agora sim a cidade ia decolar. O povo, cansado e carente de um gesto de atenção, aplaudia.
O problema é que o combustível do foguete de Getúlio era o futuro daquela gente.
O ônibus para Belas Vistas
O conto de Vila Esperança não termina com revolução. A política ruim é mestre em cansar o espírito. Ela não precisa vencer o povo todos os dias. Basta convencê-lo de que nada muda.
No fim da tarde, mais um jovem beijou a mão de Seu Tião na rodoviária. Era seu neto, levando uma mala simples e uma coragem triste.
— Vai procurar o que lá fora, meu filho? — perguntou o velho.
— Vou procurar uma cidade onde o prefeito não seja dono da padaria, do posto e das nossas vidas, vô. Vou para as bandas de Belas Vistas também.
O ônibus partiu, levantando a poeira vermelha. Pouco depois, a poeira assentou sobre as placas de obras inacabadas.
Vila Esperança continuou ali: rica de terra, pobre de gente que a amasse mais do que amava o próprio bolso.
Nota editorial: Crônica literária. Personagens, cidade e situações são usados como recurso narrativo de crítica social.